Foi como mergulhar numa piscina rasa, aquela imensidão caudalosa e horizontal, era simplesmente uma miragem. Olhando-se no espelho, confessou a si que estava presso a alguém, que depois de tanto tempo juntos, não conhecia. Tudo havia acabado repentinamente, como naqueles sonhos que ele costumava ter voando sobre às montanhas geladas no Himalia. Não seria fácil encara o amanhã sabendo que não teria mais os beijos, as ligações, e os códigos afetivos que só os dois conheciam.
Tentou prender as dores e fingir que nada havia ocorrido, tentou sorrir para o mundo mostrando que já estava melhor. Mas a cicatriz estava ali, escancarada e aberta, ela sangrava e os respingos ao cair no chão, alastrava-se em meandros como num rio. Não tinha como esconder o corte profundo, então reconheceu e respeitou o luto. Preferiu o quarto escuro, e com a porta fechada chorou, não aceitou, gritou, sorriu e chorou novamente.
Nessa bipolaridade de emoções, sua alma foi em fim se libertando dos fantasmas.Quais eram esses fantasmas? A persona do outro cujas fichas foram investidas, o olhar do sujeito, o seu sorriso, a pele, as roupas com estilo próprio. São em momentos assim que percebemos o processo que passa quem hoje é frio em sentimentos. É compreensivo a frieza de muitos quando são enganados, mal tratados, rejeitados e usados.
Escreveu naquela noite:
Se por algum motivo eu parecer frio, peço paciência, foram os que chegaram primeiro que me tornaram assim. Dentro de mim os sentimentos foram postos pra dormir. Respeitarei meu sofrimento, e até acho que aceitar essa dor é tão importante quanto vivenciar a dadiva do amor. Quem não está disposto a sofrer, não estará disposto a amar.
Bruno fitou pela ultima vez a foto, a rasgou sem travar no ato, e decidiu praticar o desapego. Aceitou um cinema com os amigos no dia seguinte.

